16.6.05


Torquato Neto

__________________________________________________________________________





Cogito





eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível




eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora




eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim




eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.







Poema publicado no livro "Os Últimos Dias de Paupéria", Max Limonad - Rio de Janeiro, 1973, e selecionado por Ítalo Moriconi para figurar no livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 269.




18:18 .
_______________




29.5.05


Salvador Dalí

__________________________________________________________________________


 Salvador Dalí (1904-1989)

Salvador Dali - Soft Self-Portrait with Fried Bacon, 1941. Oil on canvas.
Original painting size 50.0 cm x 61.0 cm.
© Salvador Dali/Foundation Gala-Salvador Dali/DACS 2001



17:45 .
_______________




15.5.05


Adélia Prado

__________________________________________________________________________


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Visite o Projeto Releituras


16:02 .
_______________




20.1.05


Egon Schiele

__________________________________________________________________________


Egon Schiele  (Tulln,1890-Vienna,1918)

Egon Schiele.Self-Portrait as St. Sebastian (Poster for Arnot Gallery exhibition),
1914/15, Indian ink and opaque 67 x 50 cm
Historisches Museum der Stadt Wien, Vienna





15:03 .
_______________




1.11.04


Leon Eliachar

__________________________________________________________________________


Por alto, biografia


Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, "cairoca". Tenho cabelos castanhos, cada vez menos castanhos e menos cabelos. Um metro e 71 de altura, 64 de peso, 84 de tórax (respirando, 91), 70 de cintura e 6,5 de barriga.

Em 1492, Colombo descobriu a América; em 1922, a América me descobriu. Sou brasileiro desde que cheguei (aos 10 meses de idade), mas oficialmente, há uns dois anos; passei 35 anos tratando da naturalização. Minha carreira de criança começou quando quebrei a cabeça, aos dois anos de idade; minha carreira de adulto, quando comecei a fazer humorismo (passei a quebrar a cabeça diariamente). Tive vários empregos: ajudante de balcão, ajudante de escritório, ajudante de diretor de cinema, ajudante de diretor de revista, ajudante de diretor de jornal. Um dia resolvi ajudar a mim mesmo sem a humilhação de ingressar na Política: comecei a fazer gracinhas - fora da Câmara. Nunca me dei melhor. Meu maior sonho é ter uma casa de campo com piscina, um iate, um apartamento duplex, um corpo de secretárias, um helicóptero, uma conta no banco, uma praia particular e um "short". Por enquanto já tenho o "short".

Sou a favor do divórcio, a favor do desquite e a favor do casamento. Sem ser a favor deste último não poderia ser dos primeiros. Sou contra o jogo, o roubo, a corrupção e o golpe; se eu fosse candidato isso não deixaria de ser um grande golpe.

O que mais adoro: escrever cartas. O que mais detesto: pô-las no Correio. Minha cor preferida é a morena, algumas vezes a loura. Meu prato predileto é o prato fundo. O que mais aprecio nos homens: suas mulheres - e nas mulheres, as próprias. Acho a pena de morte uma pena.

Não sou superticioso, mas por via das dúvidas, evito o "s" depois do "r" nessa palavra. Se não fosse o que sou, gostaria de ser humorista. Trabalho 20 horas por dia, mas, felizmente, só uma vez por semana; nos outros dias, passo o tempo recusando propostas - inclusive de casamento. Acho que a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse - isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse. Mas isso não impede que eu seja, algum dia, um homem ideal.



Leon Eliachar, no livro O Homem ao Quadrado, Livraria Francisco Alves/Editora Paulo de Azevedo Ltda., Rio de Janeiro, 1960 (orelhas da capa e contracapa)




16:02 .
_______________




14.9.04


João Câmara

__________________________________________________________________________


João Câmara(1944)

João Câmara. Auto-retrato, 1990
Óleo sobre madeira
210 X 67 X 52 cm
Coleção do artista
Reprodução fotográfica: autoria desconhecida




12:14 .
_______________




20.8.04

Bocage
____________________________________________________________________


Auto-retrato


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de face, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas e frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.



M. M. Barbosa du Bocage
In: Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas. Porto: Publicações Anagrama, 1969.




17:16 .
_______________




1.7.04


Norman Rockwell

__________________________________________________________________________


 Norman Rockwell (1894-1978)

Norman Rockwell, Triple Self-Portrait, Lithograph 31.5 x 23.5 inches (paper)
Saturday Evening Post cover - Feb. 13, 1960





15:11 .
_______________




11.6.04

Juca Chaves
____________________________________________________________________


Auto-retrato

Simpático, romântico, solteiro,
autodidata, poeta, socialista,
da classe 38 reservista,
de outubro, 22, Rio de Janeiro.

Com a bossa de qualquer bom brasileiro,
possuo o sangue quente de um artista,
sou milionário em senso de humorista
mas juro que estou duro e sem dinheiro.

Há quem me julgue um poeta irreverente...
Mentira, é reação da burguesia,
que não vive, vegeta falsamente
num mundo de doente hipocrisia.

Mas o meu mundo é belo e diferente:
vivo do amor ou vivo de poesia...
E assim eu viverei eternamente,
se não morrer por outra Ana Maria ...



Música gravada pelo autor em 1962, na RGE.
Fonte: História da Música Popular Brasileira,
fascículo 41. São Paulo, Abril Cultural, 1971.




17:18 .
_______________




5.3.04


Amedeo Modigliani

__________________________________________________________________________


Amedeo Modigliani (1884-1920)

Amedeo Modigliani. Auto-Retrato, 1919. Óleo sobre tela. 100.0 x 64.5 cm.Museu
de Arte Contemporânea da USP.
Doação: Yolanda Penteado e Francisco Matarazzo Sobrinho




18:27 .
_______________




6.2.04

José Simão
____________________________________________________________________


eu peguei e nasci!


Sou filho de árabe com loira e deu macaco na cabeça. E eu não tenho 56 anos. Eu tenho 18 anos. Com 38 de experiência. E eu era um menino asmático que ficava lendo Proust e ouvindo programa de terror no rádio.

Em 69 entrei pra Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Mas eu matava aula com o namorado da Wanderléa pra ir assistir o programa de rádio do Erasmo Carlos. E aí eu desisti. Senhor Juiz, Pare Agora!

E aí eu fui pra swinging London, usava calça boca de sino, cabelo comprido e assisti ao show dos Rolling Stones no Hyde Park. E alguns bicos pra BBC.

Voltei. Auge do Tropicalismo. Freqüentava as Dunas da Gal em Ipanema. Passei dois anos batendo palma pro pôr-do-sol e assistindo o show da Gal toda noite. E depois diz que hippie não faz nada. O Cazuza tentava se enturmar mas como ele era muito menino a gente não dava a menor bola. Foram os Anos Baianos. E todo Carnaval a gente ia pra Bahia atrás do Caetano. Ia de carona e voltava de caganeira! Rarará!

Aí em 87 entrei pra Folha e escrevo colunas desde então. Que eu chamo de telejornal humorístico. Onde abordo os três temas que mais deliciam os brasileiros: sexo, política e futebol. Trio elétrico do brasileiro: real, bunda e bola!

Time do coração: eu queria ser corintiano mas são-paulino!

Opção sexual : no sofá com o cachorro.

Pior compra que já fez : uma caixa de acarajé em pó.

Religião : ateu místico. Aquele que faz o sinal da cruz, toma banho de sal grosso e tem três São Jorges ao lado do computador! E ecumênico por ecumênico eu prefiro o ecumenicuzinho da Madonna!

Livros de cabeceira : Paul Bowles, Gregório de Mattos e Carandiru, do Drauzio Varella.

Ojeriza ideológica : tucanos. TÔ FORA!

Acadêmicos : acadêmicos por acadêmicos eu prefiro Os Acadêmicos do Salgueiro!

Filmes Inesquecíveis : todos de Woody Allen e Hitchcock. E tirando Rocco e seus irmãos só gosto de cinema americano: não assisto filme estrangeiro. E nem de país que não tenha água potável!

Definição de filme cabeça : um monte de gente pelada discutindo.

Uma boa causa : liberdade de expressão. Viva Larry Flynt!

Filosofia de vida : nóis sofre mas nóis goza! E gostoso!


Acorda Brasil!
Que eu vou dormir!



Texto extraído do Site Oficial de José Simão




20:16 .
_______________




25.1.04


Anita Malfatti

__________________________________________________________________________


Anita Malfatti(1889-1964)

Anita Malfatti. Auto-retrato, 1922
Pastel sobre papelão 36,5X25,5 cm
Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros/USP (São Paulo, SP)
Reprodução fotográfica Leonardo Crescenti




18:43 .
_______________




21.1.04

Hilda Hilst
____________________________________________________________________



Clip



Nome -- Hilda Hilst.

Nascimento -- Jaú (SP), 21/04/1930.

Altura e peso -- 1,62m, 62kg.

Pai -- Apolônio Almeida Prado Hilst.

Mãe -- Bedecilda Vaz Cardoso.

Signo -- Touro, ascendente Capricórnio.

Estado civil -- divorciada de Dante Casarini, escultor.

Filhos -- Nunca tive vontade de ter. Ou eu escrevia ou tinha filhos.

Idiomas -- Aprendi alemão quando era pequena, depois nunca mais falei, com o nazismo peguei medo da língua e dos alemães. (...) Leio em francês, inglês, espanhol; não falo nenhuma muito bem.

Maior virtude -- Generosidade.

Maior defeito -- Mesquinharia.

Medo -- De avião, de doenças.

O que a irrita mais -- Não suporto gente que chega para você e fala: "Veja bem".

Arrependimento -- Nenhum. O que me propus fazer eu fiz, e não me arrependo.

Elegância -- Simplicidade.

Uma palavra -- Rútilo. Estou escrevendo uma novela que se chama Rútilo Nada.

Um filme --O Jardim dos Finzi Contini, do Vittorio de Sica. Gostei também de Faca na Água, do Polanski.

Música -- Não sou muito ligada, música constante chega a me irritar. Gosto de algumas sinfonias do Mahler, me impressionam muito.

TV -- Adoro novela das oito.

Ídolo -- Admiro tantos homens... Bertrand Russel, Jung. Rosa Luxemburgo pela intensidade de emoções. Uma mulher que me impressionou foi a Simone Weil.

Receita de sucesso -- Meu conselho para o jovem escritor: aprenda inglês bem, mude-se para Londres ou EUA e vá escrever em inglês, porque em português pode-se escrever uma obra-prima que não acontece nada.


Fragmento de matéria publicada na Folha de SP / Revista d' / 01/09/1991



16:54 .
_______________




16.1.04


Eugène Delacroix

__________________________________________________________________________


Eugène Delacroix (1798-1863)

Eugène Delacroix, Self-Portrait. c.1837. Oil on canvas. Louvre, Paris, France.



14:42 .
_______________




15.1.04

João Ubaldo Ribeiro
____________________________________________________________________


Auto-retrato


Nome João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro.

Data de Nascimento — 23 de janeiro de 1941.

Signo — Aquário.

Livro de cabeceiraA Ilíada.

Desejo não realizado — Não tenho.

Lugares — Rio de Janeiro e Itaparica.

Mania — De enrolar a ponta do cabelo junto à orelha.

Vício — Fumar cigarro. Um maço e meio por dia de Hollywood.

Bebida — Uísque. De preferência, Black & White.

Filmes Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, e Férias de amor, de Joshua Logan.

AtorLaurence Olivier.

AtrizFernanda Montenegro.

MúsicaBach e Mozart.

Escritor Shakespeare.

Lazer preferido — Ler.

Melhor horário para escrever — De madrugada. O silêncio e a tranqüilidade me inspiram.

Paixão — Se minha mulher estivesse do meu lado, ela saberia responder.

Raiva — De violência.

O que mais detesta no caráter das pessoas — Hipocrisia.


Jornal do Brasil / Revista Domingo
Data não localizada — provavelmente agosto de 1991




15:40 .
_______________




27.12.03


Candido Portinari

__________________________________________________________________________


Candido Portinari (1903-1962

Candido Portinari. Auto-retrato, 1956
Óleo sobre madeira compensada 46,3X38,3 cm
Coleção particular



11:43 .
_______________




19.12.03

Millôr Fernandes (16-08-1923)

__________________________________________________________________________

Autobiografia de mim mesmo à maneira de mim próprio


E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras - reco-reco, tatibitati, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada.

Quem é que eu sou? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não se fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e Ele me venceu com um sórdido milagre. A Segunda com o destino, e Ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.

Vêem o que sou? E onde estou? E por que foi? Ah, sim, Millôr, é o que eu dizia. Nasci no Meyer, aos nove anos de idade, onde é que já ouvi isso? Aqui estou porém, tão magro e tonto, vago e preocupado: no escuro não enxergo, não entendo do que não sei, paro onde me detenho, vou e volto cheio de saudades. Pois, se fico, anseio pelo desconhecido. Se parto, rói-me a separação.

(...) Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela. Aos dez anos de idade vendi meu primeiro desenho pra jornal e me tornei alvo da admiração geral (minha mãe e minha avó). Aos quinze já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Pois sou popular por natureza, por mais que me esforce pra ser hermético e profundo. Se eu chego e digo que achei um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos, todos percebem logo que quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será.

(...) Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. Não creio em Deus, mas sei que Ele crê em mim. Creio que a Terra é chata. Procuro em vão não sê-lo.

(...) Apesar da escola, sou basicamente, um autodidata. Tudo que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.

A esta altura da vida, além de descendente e vivo, sou, também, antepassado. É bem verdade que, como Adão e Eva, depois de comerem a maçã, não registraram a idéia, daí em diante qualquer imbecil se achou no direito de fazer o mesmo. Só posso dizer, em abono meu, que ao repetir o Senhor, eu me empreguei a fundo. Em suma: um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar.

Fragmento do texto de estréia de Millôr Fernandes na revista Veja , em 1968.


13:57 .
_______________




11.12.03

M. C. Escher
__________________________________________________________________________


M. C. Escher (1898-1972)

M. C. Escher , Self-Portrait in a mirror, detail, 1943. Lithographic Crayon.


12:46 .
_______________




4.11.03


Graciliano Ramos

__________________________________________________________________________



Auto-retrato aos 56 anos

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas
Casado duas vezes, tem sete filhos
Altura 1,75
Sapato n.º 41
Colarinho n.º 39
Prefere não andar
Não gosta de vizinhos
Detesta rádio, telefone e campainhas
Tem horror às pessoas que falam alto
Usa óculos. Meio calvo
Não tem preferência por nenhuma comida
Não gosta de frutas nem de doces
Indiferente à música
Sua leitura predileta: a Bíblia
Escreveu Caetés com 34 anos de idade
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados
Gosta de beber aguardente
É ateu. Indiferente à Academia
Odeia a burguesia. Adora crianças
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz
Gosta de palavrões escritos e falados
Deseja a morte do capitalismo
Escreveu seus livros pela manhã
Fuma cigarros Selma (três maços por dia)
É inspetor de ensino, trabalha no "Correio do Manhã"
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo
Só tem cinco ternos de roupa, estragados
Refaz seus romances várias vezes
Esteve preso duas vezes
É-Ihe indiferente estar preso ou solto
Escreve à mão
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio
Tem poucas dívidas
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas
Espera morrer com 57 anos.


12:08 .
_______________




28.7.03


Tarsila do Amaral

__________________________________________________________________________


Tarsila do Amaral (1886-1973)

Auto-retrato, 1924. Óleo/papel-tela 38 X 32,5cm
Coleção Gov. do Estado de São Paulo



01:35 .
_______________




25.7.03


Manuel Bandeira

__________________________________________________________________________




Auto-retrato

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.






12:12 .
_______________




31.5.03


Frida Kahlo

__________________________________________________________________________


Frida Kahlo (1907-1954)
Autorretrato con Collar, 1933. Oleo sobre lámina 35 x 29 cm
Colección J. y N. Gelman



18:08 .
_______________




5.12.02


Sérgio Porto

(Stanislaw Ponte Preta)
__________________________________________________________________________


Auto-retrato do artista quando não tão jovem


ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.

OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além dos clássicos), e ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.

PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.

QUALIDADES PARADOXAIS: Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.

PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.

ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.

PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.

SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente, qualquer pai-de-santo é um simples cético.

TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não é tão boa quanto pensa.

MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).

ORGULHO SECRETO: Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.


Assinado, Sérgio Porto , agosto de 1963.


01:01 .
_______________




30.11.02


Diego Rivera

__________________________________________________________________________


Diego Rivera (1886-1957)

Autorretrato, 1941. Dedicado a Irene Rich


20:32 .
_______________




21.11.02


Mário Quintana

__________________________________________________________________________


O Auto-retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!

In: Apontamentos de História Sobrenatural. Porto Alegre, Globo-IEL, 1976.


20:07 .
_______________




8.10.02


Sylvia Plath

__________________________________________________________________________


Sylvia Plath (1932-1963)
Sylvia Plath, self-portrait in pastels 19" x 25"
Undated, but apparently from her college years (early 1950s)



17:33 .
_______________




1.10.02


Adriana Calcanhotto

__________________________________________________________________________



Auto-retrato

Sou do Rio grande não tenho medo de nada. Amo o rio de Janeiro. Tenho dificuldade em dizer não. Gente careta me esnoba. Tenho péssima memória para nomes. Eu quase não gosto de música. Uso a mesma calça preta há três anos. Cozinho muito bem mas tenho preguiça. Odeio abóbora. Amo Elizabeth Taylor. Nunca fiz coleção. Adoro ajudar meus amigos se algo estiver a meu alcance. Sou lenta para revidar. Adoro cores. Não tolero acomodação de gente que trabalha comigo. Sou pontual. Paro no sinal vermelho. Torro pequenas fortunas em livros de arte. Detesto gente sem humor. Às vezes dou esmolas. Amo Miles Davis. Reclamo muito. Sei pedir desculpas. Compro discos pela capa. Não guardo mágoas. Adoro bichos. Não ligo pra dinheiro. Moro no Jardim Botânico em um pequeno apartamento pintado de amarelo. Ouço todas as fitas que me mandam. Adoro dançar. Amo Balanchine. Não suporto a síndrome retrô. Detesto quinquilharias. Amo Mondrian. Gosto de lavar louça. Preciso ficar sozinha. Gosto do Botafogo. Torço pelo Grêmio. Não sei jogar cartas. Adoraria fazer uma trilha para cinema. Gostaria de jogar golfe. Amo Tàpies. Bebo café demais. Não gosto de ar condicionado. Minha mãe diz que eu mudo muito. Sou esganada. Detesto verde-piscina. Amo João Cabral. Não sei tocar violão. Toco violão bem. Tenho braços lindos. Iberê Camargo pintou meu retrato. Conheço e reconheço as pessoas pelas mãos. Não tolero desperdício. Detesto courant d'air. Amo Lina Bo Bardi. Eu não gosto do bom gosto. Detesto remédio. Sou muito peluda. Adoro a Rainha da Inglaterra. Adoro brie. Gente cafona me esnoba. Nunca soube o que fazer com as mãos na presença de celebridades. Meus amigos dizem que eu mudo muito. Sempre fui feliz no amor. Amo Marlon Brando. Adoro o Guimas da Gávea. Não vivo sem champanhe. Tenho um "bicho" de Lygia Clark. Durmo bem menos do que gostaria. Adoro gente que diz " é ruim, hein?!". Detesto gente que mitifica. Gosto muito de dirigir. Não gosto de mistério. Desprezo gente fiteira. Adoro vermelhos e rosas. Hospedo infratores e banidos. Parei de fumar. Não tenho superstição alguma. Amo John Cage. Nunca quis ter filhos. A primeira palavra que eu li foi "México". Não gosto de me apresentar na televisão. Adoro minhas mãos. Adoro rir de mim mesma. Sou perdida por gente doida. Amo Issey Myake. Detesto velharias. Jornalistas dizem que eu mudo muito. Desprezo gente que se leva a sério. Adoro aristocratas. Não sei viver sem frutas. Sou bastante disciplinada. Quero muito conhecer o Egito. Tenho inveja dos elefantes. Amo Augusto de Campos . Adoro as cores do Mediterrâneo. Adoro a comida da Provence. Não suporto FreeShop e aquele monte de bugigangas. Detesto gente deslumbrada. Amo Merce Cuningham. Quero fazer canções bem simples. Quero saber para que serve uma canção. Amo Andy Warhol. Sou estrábica. Adio decisões muito importantes. Calço 38. Tenho um "trepante" de Lygia Clark. Adoro vinho. Não sei dar entrevistas. Adoro a Mangueira. Eu quero o Morro Dois Irmãos iluminado. Adoro mergulhar em Angra. Amo Mário Peixoto. Gente inculta me esnoba. Adoro azuis. Adoro Klein. Adoro Klee. Amo Matisse. Eu sempre digo sim. Eu gosto de fazer shows. Adoro cantar no Rio. Eu durmo no avião. Sou generosa em demasia. Amo Gertrude Stein. Sou louca por orquídeas. Estou fulminada por um amor há sete anos. Amo Hélio Oiticica. Adoro Joaquim Pedro de Andrade. Detesto estetização. Odeio folclorização. Eu não gosto de me ver no vídeo. Amo Oswald de Andrade. Tenho uma litogravura do Miró. No inverno não tomo café da manhã sem morangos. No verão não tomo café da manhã sem melancia. Ainda terei um móbile do Calder. Cometo barbaridades por um Swatch. Dizem que eu mudo muito.

Adriana Calcanhotto

Jornal do Brasil / Caderno Mulher 09/09/1996


18:38 .
_______________




29.9.02


Andy Warhol

__________________________________________________________________________


Andy Warhol (1928-1987)
Self-Portrait, 1986. Polaroid photograph. Collection: The Andy Warhol Museum,
Pittsburgh.Founding Collection,The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts.
Photo: Andy Warhol



22:34 .
_______________




23.9.02


Vinicius de Moraes

____________________________________________________________________


Auto-retrato


Nome: Vinicius.
Por quê?
O Quo Vadis, saído em 13
Ano em que também nasci
Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
E Bahia (que guardo em mim).
Sou carioca da Gávea
Bairro amado, de onde nunca
Deveria ter saído.
Fui, sou e serei casado
E apesar do que se diz
Não me acho tão mau marido.
Filhos: três e um a caminho
Altura: um metro e setenta
Meão, pois. O colarinho
Trinta e nove e o pé quarenta.
Peso: uns bons setenta e três
(precisam ser reduzidos...)
Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer
Nisso tenho um grande orgulho
Breve serei cineasta (Ativo). Sou materialista.
Deito mais tarde que devo
E acordo antes do que gosto.
Fui auxiliar de cartório
Censor cinematográfico
Funcionário (incompetente)
Do Instituto dos Bancários.
Atualmente sou segundo Secretário de Embaixada.
Formei-me em Direito, mas
Sem nunca ter feito prática.
Infância: pobre mas linda
Tão linda que mesmo longe
Continua em mim ainda.
Prefiro vitrola a rádio
Automóvel a trem, trem
A navio, navio a avião
(De que já tive um desastre).
Se voltasse a vida atrás
Gostaria de ser médico
Pois sou um médico nato.
Minhas frutas prediletas
Por ordem de preferência:
Caju, manga e abacaxi.
Foi com meu pai, Clodoaldo
de Moraes, poeta inédito
Que aprendi a fazer versos
(Um dia furtei-lhe um
Para dar à namorada).
Tinha dezenove anos
Quando estreei com meu livro
"O Caminho para a Distância"
Meu preferido é o último:
"Poemas, Sonetos e Baladas"
Toco violão, de ouvido
E faço sambas de bossa
Garoto, lutei "jiu-jitsu"
Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabinas
Sou quase perfeito.
As coisas
Que mais detesto: viagens
Gente fiteira, facistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.
As coisas que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos.
Ajudo bastante em casa
Pois sou um bom cozinheiro
Moro em Paris, mas não há nada
Como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz (E infeliz).
Desde os 7 anos
Venho fazendo versinhos
Gosto muito de beber
E bebo bem (hoje menos
Do que há dez anos atrás).
Minha bebida é o uísque
Com pouca água e muito gelo.
Gosto também de dançar
E creio ser essa coisa
A que chamam de boêmio.
Em Oxford, na Inglaterra
Estudei literatura
Inglesa, que foi
Para mim fundamental.
Gostaria de morrer
De repente, não mais que
De repente, e se possível
De morte bem natural.
E depois disso, ao amigo
João Condé nada mais digo.

Vinicius de Moraes

In: Poesia Completa e Prosa
(org. Alexei Bueno). Rio de Janeiro, Nova Aguilar,1998.


19:40 .
_______________






Home


________


Créditos











RSSify at interney.net



Powered by Blogger



________



Arquivos




_________


Comentários