eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
Poema publicado no livro "Os Últimos Dias de Paupéria", Max Limonad - Rio de Janeiro, 1973, e selecionado por Ítalo Moriconi para figurar no livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 269.
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Egon Schiele __________________________________________________________________________
Egon Schiele.Self-Portrait as St. Sebastian (Poster for Arnot Gallery exhibition),
1914/15, Indian ink and opaque 67 x 50 cm
Historisches Museum der Stadt Wien, Vienna
Leon Eliachar __________________________________________________________________________
Por alto, biografia
Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, "cairoca". Tenho cabelos castanhos, cada vez menos castanhos e menos cabelos. Um metro e 71 de altura, 64 de peso, 84 de tórax (respirando, 91), 70 de cintura e 6,5 de barriga.
Em 1492, Colombo descobriu a América; em 1922, a América me descobriu. Sou brasileiro desde que cheguei (aos 10 meses de idade), mas oficialmente, há uns dois anos; passei 35 anos tratando da naturalização. Minha carreira de criança começou quando quebrei a cabeça, aos dois anos de idade; minha carreira de adulto, quando comecei a fazer humorismo (passei a quebrar a cabeça diariamente). Tive vários empregos: ajudante de balcão, ajudante de escritório, ajudante de diretor de cinema, ajudante de diretor de revista, ajudante de diretor de jornal. Um dia resolvi ajudar a mim mesmo sem a humilhação de ingressar na Política: comecei a fazer gracinhas - fora da Câmara. Nunca me dei melhor. Meu maior sonho é ter uma casa de campo com piscina, um iate, um apartamento duplex, um corpo de secretárias, um helicóptero, uma conta no banco, uma praia particular e um "short". Por enquanto já tenho o "short".
Sou a favor do divórcio, a favor do desquite e a favor do casamento. Sem ser a favor deste último não poderia ser dos primeiros. Sou contra o jogo, o roubo, a corrupção e o golpe; se eu fosse candidato isso não deixaria de ser um grande golpe.
O que mais adoro: escrever cartas. O que mais detesto: pô-las no Correio. Minha cor preferida é a morena, algumas vezes a loura. Meu prato predileto é o prato fundo. O que mais aprecio nos homens: suas mulheres - e nas mulheres, as próprias. Acho a pena de morte uma pena.
Não sou superticioso, mas por via das dúvidas, evito o "s" depois do "r" nessa palavra. Se não fosse o que sou, gostaria de ser humorista. Trabalho 20 horas por dia, mas, felizmente, só uma vez por semana; nos outros dias, passo o tempo recusando propostas - inclusive de casamento. Acho que a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse - isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse. Mas isso não impede que eu seja, algum dia, um homem ideal.
Leon Eliachar, no livro O Homem ao Quadrado, Livraria Francisco Alves/Editora Paulo de Azevedo Ltda., Rio de Janeiro, 1960 (orelhas da capa e contracapa)
Simpático, romântico, solteiro,
autodidata, poeta, socialista,
da classe 38 reservista,
de outubro, 22, Rio de Janeiro.
Com a bossa de qualquer bom brasileiro,
possuo o sangue quente de um artista,
sou milionário em senso de humorista mas juro que estou duro e sem dinheiro.
Há quem me julgue um poeta irreverente...
Mentira, é reação da burguesia,
que não vive, vegeta falsamente
num mundo de doente hipocrisia.
Mas o meu mundo é belo e diferente:
vivo do amor ou vivo de poesia...
E assim eu viverei eternamente,
se não morrer por outra Ana Maria ...
Música gravada pelo autor em 1962, na RGE.
Fonte: História da Música Popular Brasileira,
fascículo 41. São Paulo, Abril Cultural, 1971.
Sou filho de árabe com loira e deu macaco na cabeça. E eu não tenho 56 anos. Eu tenho 18 anos. Com 38 de experiência. E eu era um menino asmático que ficava lendo Proust e ouvindo programa de terror no rádio.
Em 69 entrei pra Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Mas eu matava aula com o namorado da Wanderléa pra ir assistir o programa de rádio do Erasmo Carlos. E aí eu desisti. Senhor Juiz, Pare Agora!
E aí eu fui pra swinging London, usava calça boca de sino, cabelo comprido e assisti ao show dos Rolling Stones no Hyde Park. E alguns bicos pra BBC.
Voltei. Auge do Tropicalismo. Freqüentava as Dunas da Gal em Ipanema. Passei dois anos batendo palma pro pôr-do-sol e assistindo o show da Gal toda noite. E depois diz que hippie não faz nada. O Cazuza tentava se enturmar mas como ele era muito menino a gente não dava a menor bola. Foram os Anos Baianos. E todo Carnaval a gente ia pra Bahia atrás do Caetano. Ia de carona e voltava de caganeira! Rarará!
Aí em 87 entrei pra Folha e escrevo colunas desde então. Que eu chamo de telejornal humorístico. Onde abordo os três temas que mais deliciam os brasileiros: sexo, política e futebol. Trio elétrico do brasileiro: real, bunda e bola!
Time do coração: eu queria ser corintiano mas são-paulino!
Opção sexual : no sofá com o cachorro.
Pior compra que já fez : uma caixa de acarajé em pó.
Religião : ateu místico. Aquele que faz o sinal da cruz, toma banho de sal grosso e tem três São Jorges ao lado do computador! E ecumênico por ecumênico eu prefiro o ecumenicuzinho da Madonna!
Acadêmicos : acadêmicos por acadêmicos eu prefiro Os Acadêmicos do Salgueiro!
Filmes Inesquecíveis : todos de Woody Allen e Hitchcock. E tirando Rocco e seus irmãos só gosto de cinema americano: não assisto filme estrangeiro. E nem de país que não tenha água potável!
Definição de filme cabeça : um monte de gente pelada discutindo.
Uma boa causa : liberdade de expressão. Viva Larry Flynt!
Filosofia de vida : nóis sofre mas nóis goza! E gostoso!
Anita Malfatti. Auto-retrato, 1922
Pastel sobre papelão 36,5X25,5 cm
Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros/USP (São Paulo, SP)
Reprodução fotográfica Leonardo Crescenti
Estado civil -- divorciada de Dante Casarini, escultor.
Filhos -- Nunca tive vontade de ter. Ou eu escrevia ou tinha filhos.
Idiomas -- Aprendi alemão quando era pequena, depois nunca mais falei, com o nazismo peguei medo da língua e dos alemães. (...) Leio em francês, inglês, espanhol; não falo nenhuma muito bem.
Maior virtude -- Generosidade.
Maior defeito -- Mesquinharia.
Medo -- De avião, de doenças.
O que a irrita mais -- Não suporto gente que chega para você e fala: "Veja bem".
Arrependimento -- Nenhum. O que me propus fazer eu fiz, e não me arrependo.
Elegância -- Simplicidade.
Uma palavra -- Rútilo. Estou escrevendo uma novela que se chama Rútilo Nada.
Receita de sucesso -- Meu conselho para o jovem escritor: aprenda inglês bem, mude-se para Londres ou EUA e vá escrever em inglês, porque em português pode-se escrever uma obra-prima que não acontece nada.
Fragmento de matéria publicada na Folha de SP / Revista d' / 01/09/1991
Vêem o que sou? E onde estou? E por que foi? Ah, sim, Millôr, é o que eu dizia. Nasci no Meyer, aos nove anos de idade, onde é que já ouvi isso? Aqui estou porém, tão magro e tonto, vago e preocupado: no escuro não enxergo, não entendo do que não sei, paro onde me detenho, vou e volto cheio de saudades. Pois, se fico, anseio pelo desconhecido. Se parto, rói-me a separação.
(...) Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela. Aos dez anos de idade vendi meu primeiro desenho pra jornal e me tornei alvo da admiração geral (minha mãe e minha avó). Aos quinze já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Pois sou popular por natureza, por mais que me esforce pra ser hermético e profundo. Se eu chego e digo que achei um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos, todos percebem logo que quem os desmafagafizar bom desmafagafizador será.
(...) Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. Não creio em Deus, mas sei que Ele crê em mim. Creio que a Terra é chata. Procuro em vão não sê-lo.
(...) Apesar da escola, sou basicamente, um autodidata. Tudo que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.
A esta altura da vida, além de descendente e vivo, sou, também, antepassado. É bem verdade que, como Adão e Eva, depois de comerem a maçã, não registraram a idéia, daí em diante qualquer imbecil se achou no direito de fazer o mesmo. Só posso dizer, em abono meu, que ao repetir o Senhor, eu me empreguei a fundo. Em suma: um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar.
Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas
Casado duas vezes, tem sete filhos
Altura 1,75
Sapato n.º 41
Colarinho n.º 39
Prefere não andar
Não gosta de vizinhos
Detesta rádio, telefone e campainhas
Tem horror às pessoas que falam alto
Usa óculos. Meio calvo
Não tem preferência por nenhuma comida
Não gosta de frutas nem de doces
Indiferente à música
Sua leitura predileta: a Bíblia
Escreveu Caetés com 34 anos de idade
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados
Gosta de beber aguardente
É ateu. Indiferente à Academia
Odeia a burguesia. Adora crianças
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz
Gosta de palavrões escritos e falados
Deseja a morte do capitalismo Escreveu seus livros pela manhã Fuma cigarros Selma (três maços por dia)
É inspetor de ensino, trabalha no "Correio do Manhã"
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo
Só tem cinco ternos de roupa, estragados
Refaz seus romances várias vezes
Esteve preso duas vezes
É-Ihe indiferente estar preso ou solto
Escreve à mão Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio
Tem poucas dívidas
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas
Espera morrer com 57 anos.
Manuel Bandeira __________________________________________________________________________
Auto-retrato
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)
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Auto-retrato do artista quando não tão jovem
ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.
OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além dos clássicos), e ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.
PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.
QUALIDADES PARADOXAIS: Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.
PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.
ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.
PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.
SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente, qualquer pai-de-santo é um simples cético.
TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não é tão boa quanto pensa.
MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).
ORGULHO SECRETO: Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.
No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!
Sou do Rio grande não tenho medo de nada. Amo o rio de Janeiro. Tenho dificuldade em dizer não. Gente careta me esnoba. Tenho péssima memória para nomes. Eu quase não gosto de música. Uso a mesma calça preta há três anos. Cozinho muito bem mas tenho preguiça. Odeio abóbora. Amo Elizabeth Taylor. Nunca fiz coleção. Adoro ajudar meus amigos se algo estiver a meu alcance. Sou lenta para revidar. Adoro cores. Não tolero acomodação de gente que trabalha comigo. Sou pontual. Paro no sinal vermelho. Torro pequenas fortunas em livros de arte. Detesto gente sem humor. Às vezes dou esmolas. Amo Miles Davis. Reclamo muito. Sei pedir desculpas. Compro discos pela capa. Não guardo mágoas. Adoro bichos. Não ligo pra dinheiro. Moro no Jardim Botânico em um pequeno apartamento pintado de amarelo. Ouço todas as fitas que me mandam. Adoro dançar. Amo Balanchine. Não suporto a síndrome retrô. Detesto quinquilharias. Amo Mondrian. Gosto de lavar louça. Preciso ficar sozinha. Gosto do Botafogo. Torço pelo Grêmio. Não sei jogar cartas. Adoraria fazer uma trilha para cinema. Gostaria de jogar golfe. Amo Tàpies. Bebo café demais. Não gosto de ar condicionado. Minha mãe diz que eu mudo muito. Sou esganada. Detesto verde-piscina. Amo João Cabral. Não sei tocar violão. Toco violão bem. Tenho braços lindos. Iberê Camargo pintou meu retrato. Conheço e reconheço as pessoas pelas mãos. Não tolero desperdício. Detesto courant d'air. Amo Lina Bo Bardi. Eu não gosto do bom gosto. Detesto remédio. Sou muito peluda. Adoro a Rainha da Inglaterra. Adoro brie. Gente cafona me esnoba. Nunca soube o que fazer com as mãos na presença de celebridades. Meus amigos dizem que eu mudo muito. Sempre fui feliz no amor. Amo Marlon Brando. Adoro o Guimas da Gávea. Não vivo sem champanhe. Tenho um "bicho" de Lygia Clark. Durmo bem menos do que gostaria. Adoro gente que diz " é ruim, hein?!". Detesto gente que mitifica. Gosto muito de dirigir. Não gosto de mistério. Desprezo gente fiteira. Adoro vermelhos e rosas. Hospedo infratores e banidos. Parei de fumar. Não tenho superstição alguma. Amo John Cage. Nunca quis ter filhos. A primeira palavra que eu li foi "México". Não gosto de me apresentar na televisão. Adoro minhas mãos. Adoro rir de mim mesma. Sou perdida por gente doida. Amo Issey Myake. Detesto velharias. Jornalistas dizem que eu mudo muito. Desprezo gente que se leva a sério. Adoro aristocratas. Não sei viver sem frutas. Sou bastante disciplinada. Quero muito conhecer o Egito. Tenho inveja dos elefantes. Amo Augusto de Campos . Adoro as cores do Mediterrâneo. Adoro a comida da Provence. Não suporto FreeShop e aquele monte de bugigangas. Detesto gente deslumbrada. Amo Merce Cuningham. Quero fazer canções bem simples. Quero saber para que serve uma canção. Amo Andy Warhol. Sou estrábica. Adio decisões muito importantes. Calço 38. Tenho um "trepante" de Lygia Clark. Adoro vinho. Não sei dar entrevistas. Adoro a Mangueira. Eu quero o Morro Dois Irmãos iluminado. Adoro mergulhar em Angra. Amo Mário Peixoto. Gente inculta me esnoba. Adoro azuis. Adoro Klein. Adoro Klee. Amo Matisse. Eu sempre digo sim. Eu gosto de fazer shows. Adoro cantar no Rio. Eu durmo no avião. Sou generosa em demasia. Amo Gertrude Stein. Sou louca por orquídeas. Estou fulminada por um amor há sete anos. Amo Hélio Oiticica. Adoro Joaquim Pedro de Andrade. Detesto estetização. Odeio folclorização. Eu não gosto de me ver no vídeo. Amo Oswald de Andrade. Tenho uma litogravura do Miró. No inverno não tomo café da manhã sem morangos. No verão não tomo café da manhã sem melancia. Ainda terei um móbile do Calder. Cometo barbaridades por um Swatch. Dizem que eu mudo muito.
Vinicius de Moraes ____________________________________________________________________
Auto-retrato
Nome: Vinicius.
Por quê?
O Quo Vadis, saído em 13
Ano em que também nasci Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
E Bahia (que guardo em mim).
Sou carioca da Gávea
Bairro amado, de onde nunca
Deveria ter saído.
Fui, sou e serei casado
E apesar do que se diz
Não me acho tão mau marido.
Filhos: três e um a caminho
Altura: um metro e setenta
Meão, pois. O colarinho
Trinta e nove e o pé quarenta.
Peso: uns bons setenta e três
(precisam ser reduzidos...)
Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer
Nisso tenho um grande orgulho
Breve serei cineasta (Ativo). Sou materialista.
Deito mais tarde que devo
E acordo antes do que gosto.
Fui auxiliar de cartório
Censor cinematográfico
Funcionário (incompetente)
Do Instituto dos Bancários.
Atualmente sou segundo Secretário de Embaixada.
Formei-me em Direito, mas
Sem nunca ter feito prática.
Infância: pobre mas linda
Tão linda que mesmo longe
Continua em mim ainda.
Prefiro vitrola a rádio
Automóvel a trem, trem
A navio, navio a avião
(De que já tive um desastre).
Se voltasse a vida atrás
Gostaria de ser médico
Pois sou um médico nato.
Minhas frutas prediletas
Por ordem de preferência:
Caju, manga e abacaxi.
Foi com meu pai, Clodoaldo
de Moraes, poeta inédito
Que aprendi a fazer versos
(Um dia furtei-lhe um
Para dar à namorada).
Tinha dezenove anos
Quando estreei com meu livro
"O Caminho para a Distância"
Meu preferido é o último:
"Poemas, Sonetos e Baladas"
Toco violão, de ouvido
E faço sambas de bossa
Garoto, lutei "jiu-jitsu"
Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabinas
Sou quase perfeito.
As coisas
Que mais detesto: viagens
Gente fiteira, facistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.
As coisas que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos.
Ajudo bastante em casa
Pois sou um bom cozinheiro
Moro em Paris, mas não há nada
Como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz (E infeliz).
Desde os 7 anos
Venho fazendo versinhos
Gosto muito de beber
E bebo bem (hoje menos
Do que há dez anos atrás).
Minha bebida é o uísque
Com pouca água e muito gelo.
Gosto também de dançar
E creio ser essa coisa
A que chamam de boêmio.
Em Oxford, na Inglaterra
Estudei literatura
Inglesa, que foi
Para mim fundamental.
Gostaria de morrer
De repente, não mais que
De repente, e se possível
De morte bem natural.
E depois disso, ao amigo
João Condé nada mais digo.